O que o vídeo do Felca ensina para a imprensa e influenciadores
Eu cometi o erro de abrir o LinkedIn e, em seguida, opinar na internet
O youtuber Felca conseguiu quebrar a internet mais uma vez e está fazendo um baita barulho com seu vídeo sobre “Adultização”. Sou fã e faço parte do mercado de comunicação, e por isso tenho acompanhado todos os desdobramentos do caso com um olhar analítico.
Afinal, como jornalista e aspirante a influenciador, é maravilhoso ver um criador de conteúdo gigante fazendo um conteúdo de qualidade e com grande interesse público. Eu não costumo opinar fora do horário de trabalho, mas após ver uns textos no LinkedIn indicando que o vídeo do Felca é “uma aula de jornalismo” e mostra o “papel vergonhoso da imprensa” atual, acho que vale frisar algo aqui:
Influenciadores e imprensa são duas coisas bem diferentes, e ambos lutam contra um mesmo inimigo: as big techs.
O que o vídeo do Felca ensina para a imprensa e para outros influenciadores?
Toda a situação trazida no brilhante vídeo do criador de conteúdo, da denúncia à repercussão, não tem ligação alguma com a qualidade do trabalho feito pela imprensa. Na verdade, a imprensa até ajudou a impulsionar a situação exibida pelo youtuber.
Como jornalista que atua no mercado há uma década, eu até concordo com a colocação de que Felca cumpriu realmente o papel que caberia às empresas jornalísticas. No entanto, isso não anula coberturas que estão sendo feitas pela imprensa tradicional.
O assunto abordado no vídeo já foi repercutido e apurado pela imprensa no passado, em diferentes formas, vozes e tamanhos. O problema é que plataformas como Google, YouTube, TikTok, Facebook e Instagram não entregam esse conteúdo.
Quer um exemplo? O documentário Realidade Violada, produzido pelo Felipe Payão e colegas talentosos do TecMundo, foi lançado de graça no YouTube e trouxe uma investigação aprofundada sobre predadores sexuais. O conteúdo está disponível há sete meses e alcançou menos de 30 mil views.
Não foi por falta de apuração, trabalho e empenho da equipe. O algoritmo das big techs simplesmente definiu que esse conteúdo não era o que as pessoas queriam ver.
Felca conseguiu quebrar essa roda ao usar seu poder como influenciador digital: se um jornalista tivesse usado a mesma linguagem e abordagem, o conteúdo certamente iria flopar. O vídeo viralizou porque é bom, com certeza, mas também porque é do Felca.
Não dá pra colocar o influenciador digital e o trabalho da imprensa na mesma caixinha.
Esse caso prova que não dá pra colocar o influenciador digital e o trabalho da imprensa na mesma caixinha. Até porque se fizermos isso, cada redação vai ter que contratar um influenciador de estimação ou colocar jornalistas em banheiras de Nutella para, quando chegar a hora certa, fazer uma grande denúncia.

Jornalistas e influenciadores tem papéis diferentes na internet
E a luta contra o algoritmo é apenas um dos fatores nessa guerra contra conglomerados de tecnologia. Todo dia a imprensa tem que batalhar pra sobreviver em uma internet dominada por grandes empresas, pouco investimento e cada vez mais inteligência artificial.
Como pessoa que está na “linha de frente” do jornalismo online, admito que adoraria fazer uma pauta de denúncia por dia se possível. Porém, infelizmente é preciso fazer o “arroz com feijão do SEO” e da cobertura cotidiana para simplesmente SOBREVIVER.
Não posso falar da realidade do Felca, mas tenho certeza que se ele tivesse que fazer o trabalho diário numa redação, com todos os desafios atuais do mercado, certamente ele teria ainda mais dificuldade para lançar o vídeo dele.
No outro lado da moeda, eu tenho lampejos de como deve ser complicado viver como influenciador todo dia. Afinal, nas minhas tentativas de criação de conteúdo para redes sociais, sempre esbarro em questões como exposição, hate e os já mencionados algoritmos que nem sempre trabalham do jeito esperado.
Pessoalmente falando, acho que colocar a imprensa e o Felca no mesmo balaio é desrespeitoso para ambas as partes. Afinal, veículos jornalísticos e influenciadores têm qualidades, desafios e responsabilidades diferentes.
O segredo do sucesso é a colaboração
Toda essa repercussão do vídeo do Felca não serve de exemplo diretamente para a imprensa, mas sim para outros influenciadores. Com um público engajado e a malemolência para driblar os algoritmos, os youtubers podem trazer luz a muitos assuntos importantes.
E tenho certeza que se solicitarem ajuda, esses influenciadores poderão contar com o auxílio de jornalistas e especialistas para entregar um conteúdo de qualidade e apuração. Já temos grandes projetos no fluxo da internet mostrando que é possível aliar o trabalho de influenciadores com uma redação jornalística.
Se esse tipo de colaboração ocorrer com mais frequência e de maneira ética, a imprensa poderá fugir das amarras dos algoritmos e fazer um trabalho de qualidade, e mais produções importantíssimas de influenciadores também poderão nascer — e rendendo números gigantescos.
A grande dúvida que fica é: até quando as big techs vão deixar os jornalistas, e vídeos como esse do Felca, existirem na internet?
