Como eu cobri a visita de Hideo Kojima na Brasil Game Show sem sair de casa
Graças a um "momento Neymar", não consegui participar da Brasil Game Show 2025, mas isso não me impediu de fazer vários conteúdos sobre a feira, incluindo uma grande reportagem
A cobertura de eventos faz parte da rotina de quem trabalha com jornalismo de entretenimento. No mercado de games, um dos pontos mais importantes do ano é a Brasil Game Show, que em 2025 teve a ilustre presença de Hideo Kojiima, desenvolvedor de Death Stranding 2.
Como editor do Voxel, um dos maiores sites de games do Brasil, era de se esperar que eu participasse do evento, mas rolou um pequeno problema — um “momento Neymar”, pra ser mais exato. Semanas antes da realização da BGS 2025, eu tive fortes dores no meu joelho, tive que fazer ressonância magnética e recebi a ordem de não forçar as pernas por alguns meses.
Ou seja, a cobertura presencial da Brasil Game Show foi de base, como diz a gíria gamer. Esse tipo de evento demanda muita caminhada e correria, o que seria fatal para o meu joelho de Ronaldo Fenômeno.
Esse pormenor, no entanto, não me impediu de seguir trabalhando na cobertura do evento, só que direto de Chapecó, Santa Catarina.
Hideo Kojima não está resfriado
Lá nos Anos 60, quando o jornalismo ainda era mato, o lendário Gay Talese foi incumbido de fazer um texto de perfil do canto Frank Sinatra, mas também sofreu com um impeditivo. O astro estava indisposto e não queria ceder uma entrevista, o que exigiu uma dose de improviso do jornalista.
Sem acesso a sua fonte principal, Gay Talese apelou para os “arredores” de Sinatra para fazer o seu texto, entrevistando pessoas próximas e analisando o ambiente. O resultado? Um dos perfis mais geniais da história do jornalismo, que ajudou a fundar o movimento “New Journalism” — você pode ler aqui.
O estudo do Novo Jornalismo foi uma das partes mais marcantes da minha graduação na Universidade Federal de Santa Catarina, e ocasionalmente me lembro do resfriado de Sinatra em situações adversas. Como um jornalista fora do eixo Rio-São Paulo, o caso sempre me mostra que existem diferentes formas de chegar até a informação, e isso é extremamente relevante no mundo conectado que vivemos hoje.
Felizmente Hideo Kojima não estava resfriado durante a Brasil Game Show. No entanto, com meus joelhos em lascas, apelei para os deuses do antigo jornalismo para cobrir a maior treta do evento sem sair de casa: o “Kojima Gate”.
Como eu fiz uma reportagem sobre o Kojima sem estar no evento do Kojima
Além de aproveitar tudo que o Brasil têm a oferecer em São Paulo e no Rio, Hideo Kojima participou de vários momentos da Brasil Game Show, incluindo um Meet & Greet com fãs. No entanto, como é de costume neste tipo de feira, a situação rendeu uma treta gigante, que ficou conhecida nas redes sociais como “Kojima Gate”.
Basicamente, todos os convites para o Meet & Greet foram distribuídos por ordem de chegada antes da abertura da feira. A situação gerou teorias da conspiração sobre favorecimento de influenciadores, acusações de falta de organização e até confusão na hora do encontro dos fãs com o Kojima.
Mesmo sem estar presente no evento, eu consegui fazer a cobertura graças a um esquema híbrido que adotamos no Voxel. Enquanto eu sirvo como “o cara da cadeira” e cuido da parte operacional de texto, outros repórteres vão até o local para fazer coberturas in loco, como jogar e entrevistar devs disponíveis somente no evento — além de mapear eventuais polêmicas como essa.
As tretas envolvendo Hideo Kojima entraram no nosso radar de manhã, assim que a feira abriu, graças a repórteres como o Derek Keller, que estava no evento.
Em casa, eu comecei a buscar mais detalhes nas redes sociais, incluindo todas as partes envolvidas (pessoas reclamando e responsáveis pelo evento, por exemplo);
Após cerca de duas horas, eu já tinha o contato de aproximadamente 10 pessoas envolvidas na história.
Durante o dia, conversei com pessoas que conseguiram acesso ao Meet & Greet, fãs que ficaram de fora e também pessoas da organização, montando um panorama de tudo que estava acontecendo.
Com isso, mesmo sem estar no evento, consegui diferentes pontos de vista para montar a história e contar o que aconteceu por diferentes lados, incluindo imagens de tudo que ocorreu.
O resultado final da reportagem pode ser conferido abaixo, em um texto publicado em 13/10/2025, às 17:12, no site do TecMundo, dentro da divisão de games Voxel. Confira o link original aqui e veja, a seguir, a edição arquivada aqui no Substack.
Meet & Greet de Hideo Kojima na BGS rende polêmicas e reclamações
A vinda do desenvolvedor Hideo Kojima ao Brasil rendeu diversos memes e momentos marcantes, mas também gerou críticas envolvendo a Brasil Game Show deste ano. Enquanto fãs celebraram a visita do criador de Death Stranding e Metal Gear ao país, alguns participantes da feira ficaram decepcionados com a organização do Meet & Greet, momento para tirar fotos com o lendário desenvolvedor.
Em entrevista ao Voxel, alguns participantes que não conseguiram tirar foto com o desenvolvedor acusaram a feira de problemas de organização e falta de comunicação clara. Por outro lado, quem chegou cedo no evento conseguiu ter um momento com o desenvolvedor, mas também enfrentou limitações na hora do encontro.
O que aconteceu no Meet & Greet de Hideo Kojima? Entenda as críticas
As críticas à organização começaram antes mesmo do evento. Enquanto a participação de Kojima na BGS foi confirmada em junho, a agenda de Hideo Kojima foi publicada no evento apenas na semana passada, dias antes do início da feira.
A demora para confirmar quais dias Kojima estaria no evento acabou causando mudanças na agenda de fãs, que precisaram vender ingressos e reorganizar agendas de última hora. No entanto, a grande confusão ocorreu no sábado (11), dia em que o desenvolvedor tiraria fotos com os fãs em um Meet & Greet, momento rápido de interação popular nesse tipo de feira.
Em seu site oficial e redes sociais, a Brasil Game Show comunicou que o Meet & Greet seria gratuito e organizado por ordem de chegada. Quando os portões da feira abriram no sábado (11), às 11h, muitos fãs que esperavam tentar a sorte para conhecer Hideo Kojima ficaram decepcionados.
Segundo funcionários, todas as 200 pulseiras para o Meet & Greet foram distribuídas antes do início da feira, para pessoas que chegaram entre 6h e 11h da manhã. As credenciais ficaram com os fãs que apareceram no Anhembi antes mesmo dos portões se abrirem, por ordem de chegada.
Palco principal teve aglomeração e até “fila falsa”
A situação foi considerada injusta por muitos participantes da feira, que se aglomeraram em frente ao palco da TCL no sábado (11). Uma das pessoas descontentes é Gabriel de Melo Alves, que veio do Rio de Janeiro com o propósito de conhecer Hideo Kojima.
“A gente não tinha a informação concreta de que a distribuição das pulseiras tinha sido realizada previamente”, comenta Alves. ”Se eu soubesse que seria feito desta forma, teria feito acampamento na BGS, porque eu o motivo principal de eu ter vindo era para falar com Kojima”, revela o participante da feira.
“Se eu soubesse que seria feito desta forma, teria feito acampamento na BGS.”
Após a abertura da feira, a aglomeração de pessoas em frente ao palco abriu mais espaço para confusão. Em certo momento, uma pessoa começou a marcar quem estava no local e formar uma segunda fila, que era falsa. Em vídeos obtidos pelo Voxel, funcionários desmentiram que a pessoa fazia parte da organização do evento — o responsável também aparece usando um crachá de participante VIP.
Fila falsa movimentou a frente do palco
Uma das pessoas que estava organizando a segunda fila era o cosplayer Well Silva, que conversou com o Voxel. Segundo ele, a organização pediu para que as pessoas ficassem organizadas em frente ao palco para evitar tumulto.
“Foi onde tivemos a ideia de marcar os 20 primeiros, pois a galera já não estava em fila indiana, e sim aglomerando. Uma moça me deu a caneta, marquei meus amigos e algumas próximas, até o número 20, eu era o primeiro”, conta Silva.
“Depois disso, as pessoas que estavam atrás do número 20, pediram pra ir marcando também. Porque caso saíssem da fila, para irem ao banheiro ou comprar água, pudessem voltar sem criar confusão por tomar lugar de alguém”, explica o cosplayer.
“Nisso, foi indo um atrás do outro, muitos começaram a esticar os braços exigindo um número”, conta o cosplayer, dizendo que foi transparente com os participantes presentes no local. “Deixei bem claro que não fazia parte da equipe da BGS, nem do Kojima, que as marcações eram apenas para organizar a ordem de chegada.”
“Chegou um momento que as pessoas estavam empurrando, querendo números, e eu disse que não marcaria mais, pois a ideia era só manter a ordem de chegada”
Silva também ressalta que em momento algum recebeu indícios de que alguém da fila falsa receberia a chance de conhecer Kojima e que, eventualmente, a situação começou a ficar tumultuada. “A staff do stand, em momento algum, deu esperança de conseguir a foto, isso foi de nossa própria vontade ficar na fila”, explica. “Chegou um momento que as pessoas estavam empurrando, querendo números, e eu disse que não marcaria mais, pois a ideia era só manter a ordem de chegada.”
Kevin Vizcaya, auxiliar administrativo de São Paulo, ficou descontente com a falta de organização e tumulto no evento. O fã de Hideo Kojima buscou o serviço de atendimento ao cliente da Brasil Game Show para tentar reembolso do ingresso, e disse que entrou com processos no Reclame Aqui e Procon.
“Foi um empurra-empurra enorme, muita gente passando mal e gente empurrando e machucando os outros para poder marcar o braço”, relatou o participante da feira “Em nenhum momento a BGS mandou alguém parar com isso, dispersar ou falar que era falso.”
Influenciadores não tiveram prioridade na fila do Meet & Greet
O tumulto gerado durante a tarde do sábado gerou desinformação sobre “a fila das 6h”. Uma teoria que ganhou força na internet, e também por quem ficou de fora, é que a falta de informações teria sido proposital para dar prioridade para um grupo seleto de pessoas, como influenciadores e jornalistas.
Durante a apuração realizada pelo Voxel, no entanto, não encontramos indícios de que isso realmente aconteceu. As pessoas famosas que tiraram fotos com Hideo Kojima, como o sósia brasileiro Akihito e a influenciadora Bagi, tiveram contato com ele durante outros momentos da viagem dele no Brasil, como um evento fechado da PlayStation Brasil.
Uma das pessoas mais influentes que tirou foto com Kojima no Meet & Greet da Brasil Game Show foi o youtuber Lucas Ribeiro, conhecido por Blader Koyotte. Falando ao Voxel, ele disse que descobriu sobre a fila porque um amigo chegou cedo no local e o comunicou, após conversar com funcionários da feira.
Ribeiro também disse que chegou a conversar com funcionários do estande da TCL às 20h na sexta-feira (10), um dia antes do Meet & Greet. No entanto, naquele momento, os funcionários não tinham informações definidas de como seria a distribuição de credenciais.
Segundo as informações repassadas ao criador de conteúdo, os organizadores ainda estavam discutindo a melhor forma de distribuir as pulseiras, pois achavam injusto fornecê-las no estande a partir das 11h. Afinal, isso favoreceria membros da imprensa e compradores dos ingressos VIP, que podem entrar com antecedência na feira. Até o momento, porém, a BGS não comentou sobre o assunto.
Como foi a distribuição de pulseiras?
De acordo com os relatos de fãs que chegaram no Anhembi durante a manhã, as pulseiras foram distribuídas na entrada do evento entre às 6h e 11h. Quem chegava no local e conversava com a organização era levado para um espaço com 200 cadeiras, onde as pessoas deveriam esperar para a validação da credencial.
Conforme as fontes que conversaram com o Voxel, o processo envolvia esperar no local, depois receber a pulseira e exibir um documento, que seria conferido durante o Meet & Greet às 17h. O objetivo era garantir que a credencial não seria vendida ou repassada para outra pessoa.
Após todo o procedimento, as pessoas que obtiveram a credencial puderam aproveitar a feira até um horário próximo do Meet & Greet, onde foram direcionados para uma fila especial.
“Acordei às 5h30 da manhã”
A criadora de conteúdo Camila Vaz, conhecida como Millia, é uma das pessoas que desbanca a teoria de que houve preferência na fila. Ela disse que chegou a se informar um dia antes no palco da TCL sobre o Meet & Greet e recebeu a informação de que a distribuição ocorreria lá, dentro da feira.
Como garantiu um ingresso VIP, o plano dela e dos amigos era chegar ao evento em torno das 9h e correr para chegar o mais rápido possível ao estande da TCL, às 11h. “Eu já tinha calculado até a rota mais efetiva para chegar ao estande assim que abrisse”
Na noite anterior, no entanto, ela foi convencida pelos amigos de que seria melhor chegar ainda mais cedo no evento, para caso houvesse fila. “Por ansiedade, decidi que íamos às 7h”, explicou. “Acordamos às 5h30 para se arrumar.”
No fim das contas, acordar cedo valeu a pena. Ao chegarem na entrada do evento, Camila e seus amigos foram guiados por um segurança para a sala com as cadeiras, onde tiveram que esperar com o resto do bonde da madrugada — ela lembra que, às 7h, cerca de 30 pessoas já estavam lá.
Após ser credenciada, Camila e seus amigos puderam aproveitar o resto da feira normalmente. “Quando recebi a pulseira, o que me passaram foi que não precisava fazer fila lá dentro do evento, pois só entrariam quem estivesse com pulseira e RG.”
Realização de um sonho para os fãs
Para Bruno Micolaeski, conseguir uma foto com Hideo Kojima foi a realização de um sonho de anos. O cosplayer, que conheceu a franquia Metal Gear graças ao seu pai, chegou cedo no evento e se sentiu realizado após a foto. “Fiquei chorando por alguns minutos”, contou.
Quem também conseguiu a credencial, graças a um aviso recebido de Bruno, foi o cosplayer e corretor de seguros Derek Fenix. Ele teve que sair correndo de casa para chegar ao evento e disse que acabou não deixando seu cosplay de Jotaro do jeito que gostaria por causa da pressa.
Ainda assim, ele garantiu uma das 200 vagas e conseguiu encontrar Kojima de perto na BGS. “Eu pedi pra ele fazer uma ‘jojopose’, característica do anime, ele fez super de boa e a galera começou a aplaudir na hora.”
Jovem do Mato Grosso chegou cedo para conseguir a pulseira
Quem também conseguiu a credencial foi Aline Santos, atendente de padaria que mora no interior do Mato Grosso. Ela veio para a BGS pela primeira vez e, no dia de estreia do evento, até errou o local da feira.

No entanto, como seu principal objetivo era ver Hideo Kojima, se organizou para chegar bem cedo no dia do Meet & Greet. “Quando deu umas 3h da manhã, eu já não conseguia mais dormir.”
Enquanto esperavam nas cadeiras para receber as pulseiras, os fãs também fizeram amizade no local. “Todo mundo ali estava na maior empolgação pra ver o Kojima”, conta Aline. “Pegamos as pulseiras e fomos até a fila pra entrar dentro da BGS.”
Aline também acompanhou todo o tumulto que ocorreu fora do palco, mas como estava credenciada, conseguiu tirar foto com seu ídolo. No entanto, ela disse que ficou decepcionada com algumas limitações impostas pela equipe do evento.
“Valeu a pena ter vindo”, ela disse, “mas esperava pelo menos falar com ele, ou apertar a mão, algo do tipo”. “Os seguranças falavam para a gente não tocar ou falar com ele”, conta a participante da feira.
Fãs comentam sobre falta de organização
Após toda a experiência, Aline também deixou uma dica para a organização do evento. “Não deixem os seguranças estragarem a experiência de fãs de verdade com os seus ídolos, e organizem tudo com antecedência para não criar o tumulto que foi.”
“Organizem tudo com antecedência para não criar o tumulto que foi.”
Para alguns dos fãs que conseguiram fotos, as limitações do Meet & Greet também geraram frustração, já que o evento não permitiu autógrafo e o contato com Kojima era mínimo. “O presente que levei, nem sei se vai chegar a ele, porque a organização pegou ali. Não deixou entregar”, conta Camila Vaz.
No momento do Meet & Greet com as pulseiras, a organização também foi acusada de não realizar a checagem de identidade dos participantes, o que abriu brechas para a entrada de penetras. Um caso que viralizou envolve um jovem que recebeu uma foto da pulseira e, usando um software de edição, conseguiu cloná-la.
Penetra fala sobre “falsificação” de pulseira
O jovem que clonou a pulseira da Brasil Game Show começou a ser chamado na internet de “Snake Brasileiro”, personagem de Metal Gear, por ter conseguido se infiltrar no Meet & Greet. Enquanto muita gente levou a situação na brincadeira, a questão também levantou debates sobre a organização do evento.
Falando ao Voxel, o Snake Brasileiro, que preferiu se identificar pelo seu user no Twitter (@bloguinh0), confirmou a falsificação da pulseira, mas disse não ver imoralidade em sua ação. “Não acho que a atitude que fiz foi imoral, porque errada mesmo foi a organização da BGS, ou melhor, desorganização”.
“Sinto que venci os impedimentos que o próprio evento criou”
“Não tirei lugar de ninguém na fila, não fiz nada fora da lei, apenas fui mais um visitante que adquiriu seu ingresso pro evento honestamente e foi até lá com a promessa de que eu teria a chance de tirar foto com a lenda dos games”, comentou o fã de Hideo Kojima. “Apenas realizei meu sonho, que era o mesmo de todos os outros fãs, e sinto que venci os impedimentos que o próprio evento criou para evitar que os fãs tivessem o que deveria ser direito a eles e mais justo de se conseguir.”
O que diz a Brasil Game Show?
O Voxel entrou em contato solicitando um posicionamento para a organização da Brasil Game Show sobre as reclamações do público envolvendo a falta de transparência na comunicação do Meet & Greet. A notícia será atualizada em caso de retorno.
Nas redes sociais, a Brasil Game Show fez publicações e respondeu comentários dizendo que o Meet & Greet de Hideo Kojima seria por ordem de chegada, sem especificar mais detalhes. No dia do Meet & Greet, o aplicativo também emitiu um alerta indicando que as pulseiras esgotaram na abertura da feira.
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